Nos últimos anos, o sistema financeiro brasileiro passou por uma transformação silenciosa, mas profunda.
Infraestruturas digitais passaram a ocupar um papel central na organização dos mercados: Open Finance, Pix, registradoras de ativos, duplicata escritural, tokenização e novas camadas de dados financeiros começaram a redefinir como o crédito é originado, estruturado e distribuído.
Nesse contexto, surge uma nova agenda institucional: o debate sobre Open Asset.
A proposta busca criar uma arquitetura interoperável para circulação de ativos financeiros — permitindo que diferentes classes de ativos operem sobre padrões técnicos comuns de dados, registro e integração.
Se bem implementado, o modelo pode representar uma nova etapa da evolução da infraestrutura financeira brasileira.
Se mal desenhado, pode criar uma nova camada de complexidade sobre um sistema que já opera com elevado grau de sofisticação regulatória.
A questão central, portanto, não é se o Open Asset é uma boa ideia.
A questão é como essa arquitetura será construída.
A lógica econômica por trás do Open Asset
Infraestruturas financeiras evoluem em camadas.
Historicamente, o primeiro desafio sempre foi garantir segurança jurídica e liquidação financeira. Foi isso que levou à criação de depositárias centrais, sistemas de liquidação e ambientes regulados para circulação de ativos.
A segunda camada de evolução envolveu digitalização e automação operacional.
Foi nesse momento que surgiram registradoras, plataformas de crédito, sistemas de gestão de ativos e infraestruturas de dados que permitiram escalar mercados como o de securitização e fundos estruturados.
Agora, o sistema financeiro entra em uma terceira etapa: interoperabilidade de dados e ativos.
A ideia central do Open Asset é justamente permitir que ativos financeiros possam circular com mais eficiência entre diferentes agentes do mercado, reduzindo fricções operacionais e ampliando o acesso ao crédito.
Em teoria, isso poderia gerar benefícios relevantes:
- redução do custo de integração entre instituições
- maior transparência de dados sobre ativos
- ampliação da competição entre financiadores
- maior liquidez em mercados de crédito privado
Mas a experiência recente mostra que a criação de infraestruturas abertas raramente é um processo simples.
O aprendizado recente do sistema financeiro
O Brasil acumulou nos últimos anos experiências relevantes na implementação de infraestruturas financeiras abertas.
O Open Finance, por exemplo, representou um avanço importante na padronização de dados bancários e na criação de mecanismos de compartilhamento de informações entre instituições.
A regulação do registro de recebíveis de cartões, por sua vez, criou uma nova camada de organização para um mercado historicamente opaco.
Essas iniciativas ampliaram a competição e criaram novos espaços de inovação.
Mas também revelaram desafios importantes.
Na prática, a implementação dessas infraestruturas mostrou que padronização de dados, integração tecnológica e governança institucional são desafios mais complexos do que frequentemente se imagina no debate público.
Integrações técnicas inconsistentes, divergências de dados entre sistemas e custos elevados de adaptação tecnológica são alguns dos pontos que surgiram ao longo desse processo.
Essas experiências trazem um aprendizado importante:
Infraestruturas abertas não eliminam automaticamente as fricções do sistema financeiro.
Em muitos casos, elas apenas reorganizam essas fricções em novas camadas da arquitetura do mercado.
O desafio da diversidade de ativos
Outro ponto frequentemente subestimado no debate sobre Open Asset é a própria natureza dos ativos que se pretende integrar.
Diferentemente de dados bancários, ativos financeiros possuem estruturas jurídicas e operacionais muito distintas.
Duplicatas, contratos de crédito, recebíveis comerciais, ativos imobiliários, ativos do agronegócio e instrumentos de securitização operam sob regimes legais e operacionais diferentes.
Cada um desses ativos possui regras específicas relacionadas a:
- formalização jurídica
- documentação
- registro
- oponibilidade
- cessão ou circulação
Transformar essa diversidade em estruturas de dados interoperáveis não é apenas um desafio tecnológico.
É também um desafio jurídico e institucional.
O ponto cego do debate: onde os ativos realmente nascem
Grande parte dos ativos financeiros que circulam no sistema nasce fora do sistema financeiro.
Eles surgem dentro das empresas.
Notas fiscais, contratos comerciais, pedidos de compra, duplicatas e recebíveis operacionais são gerados dentro de ERPs corporativos e sistemas de gestão empresarial.
Isso significa que qualquer arquitetura de Open Asset que pretenda funcionar de forma eficiente precisará resolver um ponto fundamental:
como conectar a infraestrutura financeira aos sistemas que originam os ativos na economia real.
Sem essa ponte, o risco é criar uma camada sofisticada de interoperabilidade financeira sobre ativos que continuam sendo gerados de forma fragmentada na origem.
Infraestrutura financeira é arquitetura institucional
Existe uma tendência natural de tratar iniciativas como Open Asset apenas sob a ótica tecnológica.
Mas, na prática, infraestruturas financeiras são sobretudo arquiteturas institucionais.
Elas envolvem:
- governança
- padronização de dados
- neutralidade das infraestruturas
- interoperabilidade entre participantes
- segurança jurídica dos registros
Decisões tomadas nessa camada tendem a influenciar o funcionamento dos mercados por décadas.
Por essa razão, o debate sobre Open Asset precisa ser conduzido com o mesmo grau de profundidade que marcou outras evoluções institucionais do sistema financeiro brasileiro.
Uma oportunidade — se construída com maturidade
O Brasil possui hoje um dos sistemas financeiros mais digitalizados do mundo.
A combinação entre regulação sofisticada, infraestrutura tecnológica avançada e um mercado de crédito privado em expansão cria condições favoráveis para discutir novas camadas de integração de ativos.
Se bem estruturado, o Open Asset pode contribuir para:
- ampliar a liquidez de ativos privados
- reduzir custos operacionais de crédito
- facilitar o acesso das empresas ao mercado de capitais
- integrar ainda mais o sistema financeiro à economia real
Mas o sucesso dessa agenda dependerá de um fator central.
Maturidade institucional.
Infraestruturas financeiras não são construídas apenas com tecnologia.
Elas são construídas com aprendizado, coordenação e arquitetura de longo prazo.
O verdadeiro desafio do Open Asset, portanto, não é tecnológico.
É institucional.
Comentários
15
- 4 compartilhamentos
GosteiComentarCompartilhar
Adicionar comentário
Abrir teclado de emojis
Nenhum comentário ainda.
Seja a primeira pessoa a comentar.Dê início à conversa