Menos discurso sobre desintermediação. Mais engenharia financeira, governança e controle de eventos. É aqui que o blockchain começa a fazer sentido.
Mas acabou revelando onde a intermediação realmente importa
Durante mais de uma década, o blockchain foi vendido como a tecnologia que tornaria intermediários obsoletos. Bancos, bolsas, câmaras de registro, custodiante, auditores: todos estariam condenados por um livro-razão distribuído, imutável e público.
O tempo passou. A promessa não se cumpriu. E talvez isso seja uma boa notícia, especialmente para o mercado de crédito estruturado.
Para gestores de FIDC, a pergunta relevante hoje não é mais “blockchain vai mudar o mercado financeiro?”, mas sim: Onde o blockchain gera redução estrutural de risco, custo ou fricção, e onde ele é apenas uma solução sofisticada para um problema que não existe?
A grande desilusão: blockchain não elimina risco econômico
O primeiro mito que caiu foi o mais sedutor: imutabilidade não elimina risco.
Blockchain garante:
- Integridade do dado
- Rastreabilidade
- Execução automática de regras
Blockchain não garante:
- Qualidade do lastro
- Capacidade de pagamento do sacado
- Alinhamento de incentivos
- Governança econômica
Em outras palavras: um recebível ruim continua ruim mesmo que esteja gravado em um ledger imutável.
Para FIDCs, isso é central. O risco fundamental do fundo continua sendo:
- Crédito
- Concentração
- Subordinação
- Estrutura de garantias
- Governança operacional
Blockchain não substitui análise de crédito, nem estrutura jurídica. Ele atua antes e depois do risco, não no risco em si.
Onde o blockchain começa a fazer sentido (de verdade)
Se o blockchain não resolve o risco econômico, onde ele agrega valor real?
A resposta é menos glamourosa e muito mais relevante para gestores.
1. Governança operacional e redução de risco sistêmico
No Brasil, o avanço das registradoras centralizadas já deixou isso claro. A grande inovação não foi “descentralizar”, mas padronizar, registrar e travar direitos.
Blockchain, nesse contexto, funciona como:
- Trilha de auditoria nativa
- Sincronização de eventos
- Prevenção de dupla cessão
- Automação de regras ex-ante
Para FIDCs, isso significa menos risco operacional, não mais retorno mágico.
2. Automação de eventos contratuais (smart contracts ≠ autonomia absoluta)
Smart contracts não são contratos “inteligentes”. São contratos inflexíveis que executam exatamente o que foi programado.
Isso é poderoso quando aplicado a:
- Gatilhos objetivos
- Eventos verificáveis
- Regras claras e ex-ante
Exemplos concretos:
- Vencimento, amortização e waterfall
- Gatilhos de concentração
- Liberação ou bloqueio de garantias
- Eventos de default objetivos
Onde não funciona:
- Renegociação
- Exceções
- Eventos subjetivos
- Crédito idiossincrático
O aprendizado é simples: smart contracts funcionam melhor como “compliance automático” do que como substitutos da governança humana.
3. Tokenização não é sobre liquidez, é sobre controle
Outro erro comum: associar tokenização automaticamente à liquidez.
Na prática, tokenização gera:
- Fracionamento
- Rastreabilidade
- Portabilidade
- Programabilidade
Liquidez só surge quando:
- Há mercado
- Há participantes
- Há apetite de risco
- Há clareza regulatória
Para FIDCs, a tokenização é mais relevante como:
- Instrumento de controle de direitos creditórios
- Melhoria na custódia lógica
- Integração com regras automáticas de cessão e liquidação
Não como promessa imediata de mercado secundário profundo.
O ponto mais negligenciado: blockchain é uma tecnologia de coordenação, não de desintermediação
A leitura mais madura hoje é esta:
Blockchain não elimina intermediários, ele redefine quais intermediários são necessários.
No mercado de FIDC, isso é evidente. Continuam essenciais:
- Administradores fiduciários
- Gestores
- Custodiante
- Registradoras
- Auditoria
- Compliance regulatório
O que muda é como essas partes se coordenam:
- Menos reconciliação manual
- Menos divergência de base de dados
- Mais eventos automáticos
- Menos risco operacional invisível
Blockchain é menos “anti-sistema” e mais infraestrutura silenciosa.
O alerta técnico: quando blockchain cria novos riscos
Ignorar os riscos novos é repetir o erro do hype.
Alguns deles:
- Rigidez excessiva (smart contracts mal desenhados não perdoam exceções)
- Dependência de oráculos
- Governança frágil em ambientes pseudo-descentralizados
- Falsa sensação de segurança (“está no blockchain, então está certo”)
No contexto de fundos estruturados, isso exige:
- Arquitetura híbrida
- Integração com sistemas tradicionais
- Governança clara sobre quem pode intervir, quando e como
O que gestores de FIDC deveriam realmente perguntar
Não é: “Esse produto usa blockchain?”
Mas sim:
- Isso reduz risco operacional mensurável?
- Isso elimina etapas manuais críticas?
- Isso melhora governança ex-ante?
- Isso se integra ao arcabouço regulatório brasileiro?
- Isso conversa com registradoras, custodiante e administrador?
Se a resposta for “não”, blockchain é apenas marketing técnico.
Conclusão: menos ideologia, mais engenharia financeira
A era do blockchain como promessa revolucionária acabou. Começa agora a fase mais interessante: blockchain como infraestrutura discreta de eficiência e controle.
Para gestores de FIDC, o valor está:
- Na redução de fricção
- No controle de eventos
- Na governança automatizada
- Na integração com o sistema financeiro real
Não na desintermediação, mas na melhor intermediação possível.
Blockchain não substitui o gestor de FIDC. Mas expõe, sem piedade, quem ainda opera com processos frágeis.